“Estou atravessando o Canal da Mancha em um ferry-boat com destino à Inglaterra. Quando eu desembarcar, certamente vão me fazer perguntas e as minhas respostas vão definir o meu destino para os próximos seis meses. Já roí todas as unhas enquanto Rosana lê um livro. Ela é marinheira de primeira viagem e como no Consulado Britânico lhe disseram que brasileiro não precisa visto para a Inglaterra, ela está tranquila. Desembarcamos em New Heaven e a adrenalina começa a percorrer minhas veias assim que vejo as placas ‘EEC’ e ‘Other countries’, separando os cidadãos europeus dos outros…”


Assim começava o artigo Entradas sem Bandeiras, publicado na primeira edição da Leros, que continha dicas para encarar a imigração britânica, um teste de personalidade para o leitor avaliar se era brasileiro ou brazuca, gíria que na época era usada para descrever figuras a fim de levar vantagem em tudo, uma entrevista com Regina Webb, que organizava o Cantinho Brasileiro, na época a noite brasileira mais original de Londres, notícias do Brasil, e um artigo intitulado Rock & Rugas, que classificava roqueiros veteranos como camaleões ou dinossauros, começando por David Bowie e terminando com os Rolling Stones.


Mas o projeto de criar um guia para brasileiros de passagem pela Europa surgiu antes mesmo que eu viesse a Londres. Foi no final de um verão espanhol, quando eu estava em Barcelona e conheci uma gaúcha chamada Fernanda Lena. Ela tinha morado em Londres e não só me passou contatos de amigos, como também dicas essenciais para um recém-chegado. Fernanda tinha uma memória fantástica e se lembrava até dos códigos postais dos locais. Ela anotou em um papel como chegar a uma loja em Earl’s Court onde eram colocados anúncios de acomodação e ofertas de trabalho (não existia internet naquela época), escreveu endereços de lojas em Portobello Road que vendiam casacos baratos para quando o inverno chegasse, e me passou também o contato de um hotel onde eu poderia me hospedar em troca de algumas horas de trabalho pela manhã.


Antes de deixar Barcelona, marquei um encontro com Fernanda para me despedir. Ela perguntou se eu ainda tinha a o papel com os contatos que havia me passado. Eu disse que sim, ela pediu para ver e me tomou da mão a lista: “Tu vai achar que eu sou louca, né? Mas não é bom chegar com contatos de brasileiros que moram lá, vão achar que tu não é turista e pode sujar também pro pessoal”. Fernanda então me entregou uma outra lista com os mesmos contatos, menos os dos amigos dela. Só deixou o telefone de uma amiga chamada Gladir, que trabalhava na recepção de um hotel, mas me pediu para não dizer que era amigo dela se eu fosse abordado pela Imigração ao chegar na Inglaterra. Era para fazer de conta que este hotel me havia sido recomendado como uma opção de hospedagem.
Eu, que tinha passado por Portugal e Espanha sem nenhum problema, só iria entender a paranoia dela depois de ter passado um tempo na Inglaterra e ficar sabendo de casos de brasileiros repatriados. Peguei um trem para Londres e depois de atravessar o Canal da Mancha de ferry boat, o agente da Imigração só me perguntou se eu estava de férias e quanto tempo eu queria ficar. Seguindo o conselho da Fernanda, pedi duas semanas e embora tivesse apenas 800 dólares, ganhei um visto de seis meses (a tensão descrita no primeiro parágrafo deste texto refere-se a uma segunda vez que vim à Inglaterra com uma amiga, eu entrei e ela não).


Passei a primeira noite em Londres em um albergue da juventude em Holland Park. Ao acordar, avistei da janela um esquilo celebrando a manhã ensolarada e quando sai para uma caminhada percebi pela primeira vez o quanto o brilho daquele sol era enganador. Era começo de outono e os raios solares não venciam o frio que o vento soprava. Tive que comprar logo um casaco, passei algumas semanas em um hotel chamado Oxford, em Earl’s Court, em troca de servir o café da manhã e ajudar as arrumadeiras, mas logo passei a morar com um grupo de brasileiros em Shepherd’s Bush.


A vida na Inglaterra era bem mais divertida até o final dos anos 90. Eu me lembro da primeira vez que pedi a extensão do visto enviando uma simples cartinha escrita à mão, apenas dizendo que estava “enjoying my stay” e ganhei mais seis meses de visto. Lembro também dos amigos que ocupavam squatts e viviam legalmente em casas abandonadas sem ter que se preocupar com aluguel. Havia mil oportunidades de trabalho toda semana. Para alguns brasileiros, a rotina de um emprego com período integral era um insulto, já que dava para escolher os dias da semana em que se estava a fim de trabalhar e ainda sobrava dinheiro para um giro pela Europa, Nepal ou Índia.


Pagava-se £1 para estudar inglês em colégio do governo se você estivesse desempregado, ou £45 por trimestre se você tivesse emprego. Para acelerar o aprendizado, comecei a trocar aulas de conversação com um inglês que estava a fim de falar português porque pretendia ir ao Brasil, chamado Ravi Low-Beer, que se tornou o meu melhor amigo.
A casa que eu dividia com os brasileiros em Londres funcionava como uma espécie de associação comunitária e observando que eu costumava preencher o quadro de avisos do corredor com informações, Ravi sugeriu que eu publicasse um guia de sobrevivência. Eu sempre pensava em algo do gênero quando me lembrava o quanto fez diferença ter chegado a Londres com a lista de dicas que a Fernanda me passou e a ideia foi acatada quando terminei meu curso de jornalismo e minha irmã, a fotógrafa Bernadete Lou, veio morar em Londres cheia de entusiasmo.


Inspirado, coloquei uma pastinha embaixo do braço com o esqueleto da primeira edição da Leros e caminhei de Oxford Street, no centro de Londres, até Upper Street, em Islington, entrando em todas as escolas de inglês, agências de viagens e delicatessens que encontrava pelo caminho a procura de patrocinadores para um folhetim de oito páginas em português. Exausto, no fim da tarde eu bati na porta de uma empresa chamada “Pino Accommodation” e o italiano responsável pela agência comprou a contra-capa.
No dia 10 de julho de 1991 chegava às ruas de Londres a primeira edição e, para surpresa geral, quem acabou roubando a cena foi Carminha Brandão, a colaboradora caçula, que entrou na equipe numas de “eu também quero” e escreveu sobre os empregos que havia perdido. Ela começou provocando as leitoras - ‘by the way, meninas, é errado dizer “vô fazê um cleaner”, a cleaner é você, a faxina se chama ‘cleaning’. No mesmo artigo, Carminha lamentava ter perdido o emprego de babysitter por ter beliscado o menino que estava sob seus cuidados, e concluiu o texto relatando o quanto foi injustiçada quando trabalhava em um restaurante italiano: ela fazia a dieta da lua (aquela que só permite tomar líquidos quando muda a lua) e foi demitida porque o gerente a flagrou batendo uma porção de nhoc no liquidificador para torná-lo líquido e poder degustá-lo sem sair do regime.


Dez dias depois do lançamento da Leros, começavam a chegar as cartas e o folhetim de oito páginas que surgiu como uma brincadeira sem maiores pretensões, acabou se tornando o maior ponto de referência de brasileiros no Reino Unido. Nas edições seguintes, além de textos bem-humorados, críticas ao governo Collor e dicas de sobrevivência, Leros começou a publicar entrevistas com artistas tão diversos quanto Ed Motta e Chico Buarque, que na época raramente falava com a imprensa. Nosso primeiro correspondente no Brasil, João Luis Gago Batista, mandava as notícias pelo correio até que conseguimos levantar fundos para comprar um fax, e começaram a surgir novos colaboradores: Vaguinho com a espontaneidade de suas crônicas, Cida de Assis com o ti-ti-ti londrino, Elizabeth K. Davies com seus conselhos hilários que atraíam críticas iradas de leitoras irritadas quando ela, sarcasticamente, sugeria que procurassem um lobo solitário para resolver a situação imigratória. E Álvaro Inchausti, que esbanjava estilo quando dava o ar da sua graça literária. Ainda nos anos 90, a revista contou também com uma colunista tropicalista: Rita Lee, que assinava a coluna Brasix Muamba, uma rapa que ela fazia da Internet e apimentava com sua irreverência.


Mas nem tudo foi diversão na trajetória da Leros. Em 1997, o percussionista baiano Tadeu Piazza, portador do vírus HIV, saiu na capa dos jornais Evening Standard e do Daily Mail porque era portador do vírus HIV e recebia benefícios do governo britânico. A reportagem deixava implícito que ele infectava as pessoas, o que não correspondia ao testemunho de artistas que o conheciam e expressaram versões bem diferentes através da Leros. Para nossa surpresa, a autora do artigo declarou ao jornal The Guardian que a Leros havia publicado ameaças de esfaqueá-la na seção de cartas e o Guardian, sem checar os fatos, publicou levianamente as alegações. O caso acabou em pizza no Press Complaints Comission (PCC), órgão que supostamente regulamenta a imprensa britânica.


Em nossa seção de cartas, que nunca foi conhecida por sua amabilidade, os leitores sempre tiveram espaço para criticar tanto órgãos como o Consulado como até os próprios anunciantes da Leros quando algo deu errado. Em alguns casos, os criticados advertiram que iriam processar a revista por difamação mas o bom senso falou mais alto e nenhuma ameaça se concretizou.


Mas nem todas as polêmicas foram tão intensas, algumas foram até divertidas. Quando o roqueiro Serguei completou 70 anos, por sugestão dele publicamos sua foto totalmente nu, não com a intenção de mexer com a libido de ninguém, mas para mostrar que todo mundo tem libido, mesmo na terceira idade, e que não é preciso ter o torso do Rodrigo Santoro para se sentir à vontade com o próprio corpo. Quase ninguém entendeu o espírito da coisa e além de críticas impiedosas na seção de cartas, a revista perdeu umas dez páginas de anúncios, a maioria de evangélicos, mas manteve sua estrutura e continuou crescendo, sempre com o princípio de que não deve tentar agradar, mas sim apresentar alternativas que ampliem os horizontes de sua legião de leitores. E todos os colaboradores da Leros partilharam deste princípio, tanto João Luís Gago Batista, nosso primeiro correspondente, como Beth Sanna, que durante anos assinou a coluna Terra Brasilis, e Regina Webb, que saiu na capa da primeira edição e hoje atua nos bastidores, cuidando das vendas da revista mas mantendo o setor comercial distante de qualquer decisão editorial.


E aqui estamos nós, 20 anos depois, passando o bastão para os recém-chegados, como a gaúcha que se tornou minha amiga em Barcelona passou para mim, e criando espaço para o que achamos que deve ser partilhado com os demais. Tudo isso graças não só a um grupo de marujos que não abandonam o barco quando a maré está brava, mas também ao espírito aventureiro dos brasileiros que vieram parar nesta ilha e que tanto nos inspiram. E graças também aos simpáticos Bruno Larini, Eduardo Menezes, Luciano Nunes, Vanderlei Alves e Stephen Witthock, que levam as bandeiras da Leros em suas vans pela Inglaterra afora.